Sombras de uma Guerra de Empreendedorismo.
Empreendedorismo, sedução, poder, má gestão, concorrência desonesta, além de dentes e garras afiadas para se manter “vivo” nos negócios: essas são algumas lições que Sombras da Noite podem nos deixar.
O filme Sombras da Noite chega à telona com a promessa de emplacar mais um personagem icônico de Johnny Depp e, neste quesito, cumpriu a tarefa. As demais expectativas, para mim, não foram atendidas: não chega a ser comédia rasgada, tampouco romance água com açúcar; terror passou longe…
Mas é assim, despretensiosamente adorável, que Sombras da Noite da uma bela lição de empreendedorismo e disputa de poder. Como me comprometi em dar um toque feminino ao CINEBusiness, o pivô dessa turbulência empresarial não podia ser outro: a bruxa Angelique Bouchard.
Deixando de lado toda e qualquer crítica dirigida ao filme baseado no seriado americano Dark Shadows, a disputa de poder que as famílias Collins e Bouchard travam é rica em exemplos de gestão.
Por vingança amorosa, Angelique Bouchard, serviçal da família Collins, destrói tudo que Barnabás Collins ama: os pais, a namorada, a vida de pleno herdeiro de Collinsport, cidade fundada por seus pais na América, e até a bela Collinwood, mansão da família.
Quando o jovem, belo e rico Barnabás se apaixona por Josette, a fúria de Angelique chega ao ápice e, assim, sua vingança se completa: ela faz Josette cometer suicídio e condena Barnabás à eternidade, preso na forma de vampiro.
Em sua condição não humana e desprezível aos olhos mortais, Barnabás Collins é condenado ao sofrimento de ser enterrado vivo pela cidade incitada por Angelique Bouchard. Mas, no fundo, o que se percebe é um grave erro estratégico: paixão, desejo por posses e arrogância fazem-na acreditar que estará segura sem condenar à morte seu objeto de desejo, ou seja, Barnabás.
O que acontece nos quase dois séculos que se passam entre o aprisionamento e a libertação do vampiro é a inversão de poder: a empregada vira empregadora e torna-se suprema na cidade de Collinsport. O nome Bouchard passa a ser o mais influente e poderoso, colocando os Collins em segundo plano (talvez até terceiro, quarto ou quinto…).
Quando Barnabás é acidentalmente libertado vê-se perdido entre tantas novidades. Uma delas é a ruína que a família amarga: decadentes, nada influentes e rejeitados socialmente, os Collins vivem à margem da sociedade de Collinsport, cidade a qual, ironicamente, fundaram.
Sua volta logo chega aos ouvidos de Angelique que, rapidamente, se arma contra seu “amado” inimigo. Perder o poder e o prestígio não está nos planos da bruxa que domina absoluta o segmento de pescados com uma empresa forte, que sufocou e condenou à falência sua concorrente (empresa dos Collins). Sua gestão é severa, arrogante e desonesta. Seus poderes são usados para manipular, manter e ampliar seu monopólio.
Com um tesouro escondido desde o tempo de seu pai em Collinwood, Barnabás resgata a dignidade dos Collins, reformando e recuperando a mansão e a empresa, até então, falida. Mas não é só o lado material que ele resgata. O carinho e a unidade familiar começam a surgir: os Collins voltam a sentir-se uma família. Mas como escapar dos segredos ainda não revelados? Um deles é a condição não humana de Barnabás. Somente a matriarca, Elizabeth (Michelle Pfeiffer), o conhece.
Mesmo com todo esse clima familiar, a sede de sangue faz o vampiro matar: é seu instinto. Entre tantas mortes, merece ser mencionada a que deixa um ponto de interrogação no final do filme: haverá Sombras da Noite, parte II?
Pois bem, a morte da psiquiatra da família, Julia Hoffman, é o gancho para essa especulação de sequência. Ao descobrir que Barnabás é vampiro durante uma sessão de hipnose, ela o engana dizendo que tentará limpar seu sangue para torná-lo humano, promovendo transfusões. Na verdade o que ela deseja é ter a sua imortalidade e, assim, ser jovem para sempre. Implacável em seu julgamento, Barnabás suga a sua vida mortal mas, sem saber, já havia lhe dado de presente a imortalidade.
Com tudo conspirando em favor dos Collins, acende a luz de alerta para o império Bouchard porque subestimar o concorrente não mudará a ameaça iminente: os Collins estão de volta e agora, com recursos financeiros para um contra-ataque eficiente e incisivo, além dos laços de família que foram resgatados e fortalecidos.
A trégua é proposta mas logo descartada porque inexiste a possibilidade de Barnabás “amar” Angelique e esta seria a moeda de troca pela convivência pacífica entre os clãs Collins e Bouchard. O coração do vampiro pertence a Josette, ou a sua, provável, atual encarnação: Victoria Winters.
Angelique, com toda sua arrogância e falta de complacência, não pensaria em uma vingança menos desonesta que essa: devolver às cinzas a empresa e o nome Collins de forma vil, traiçoeira e mística. E assim, a empresa recém-reerguida se encontra em chamas.
Os Collins contra-atacam: nada mais natural para demonstrar poder que dar festas e eventos que mobilizem a sociedade. Essa estratégia de marketing, às vezes, abala a concorrência fazendo-a agir de forma emocional e inconsequente. Basta um deslize para que os fortes tombem e os fortalecidos se reestabeleçam, ainda que em momento de crise.
Ao ficar cara a cara com Barnabás em um baile de gala que ele promove em Collinwood para demonstrar que os Collins estão de volta ao poder (ou pelo menos na disputa por ele), a bruxa Angelique percebe que, por sua trajetória, não possui aliados, tampouco quem possa lutar ao seu lado nesta batalha. Já Barnabás Collins tem sua família para defendê-lo, mesmo depois de seu segredo revelado: sim, ele é um desajustado, ops!, um vampiro apaixonado. E não faltam excentricidades na família Collins: fantasma e lobisomem agregam valor sobrenatural ao clã. Família eclética demais, “e não faça escândalo por isso, ok?”
A destruição da bruxa Angelique Bouchard, assim como de seu império é concretizada e, ao perceber que Victoria sumiu, Barnabás entende que já havia sido programado um novo final infeliz para sua vida imortal. Contudo, desta vez, ele usou seu passado para alterar seu futuro: uma mordida lhe garante um final feliz nesse conto de fadas às avessas.
Tudo o que Barnabás Collins viveu serviu de lição. Mesmo quando se viu tentado nos braços da sedutora Angelique, ele admitiu o erro e procurou corrigi-lo. Ao matar, desculpava-se com suas vítimas e, mesmo sedento, não profanou seu lar derramando sangue dos membros da família. Como quem monta um quebra-cabeça, foi refazendo o nome Collins e seus valores. Longe de ser um exemplo, o que lhe restava era carisma e isso, para um líder, é um diferencial.
As duas famílias e as suas empresas poderiam conviver no mesmo segmento porque sempre há demanda suficiente para produtos que são trabalhados de forma eficiente no mercado. No entanto, a mistura de amor, poder, ganância, arrogância e gestão, nem sempre dá um resultado positivo quando falta maturidade para lidar com a situação, e neste caso, também com a rejeição.
Portanto, se você não tem a imortalidade a seu favor, é melhor ter bom senso e foco na sua segmentação e público-alvo, assim como respeito e apreço por todos aqueles que fazem parte do processo de construção da sua marca porque, neste caso, não será uma mordida que lhe garantirá um final feliz.
Espero que se lembre deste artigo quando estiver “nas” Sombras da Noite comendo pipoca!
Ficha Técnica:
Título Original: Dark Shadows.
Lançamento: 2012 (EUA).
Direção: Tim Burton.
Duração: 113 min.
Gênero: Fantasia.
______________________________________________________________________________________
Nice de Paula
Apaixonada por marketing, sustentabilidade e responsabilidade social. Atua como mercadóloga, analista de marketing e estrategista em comunicação de mídias sociais.
E-mail da Nice: nidepaula.mkt@gmail.com
Facebook da Nice: http://www.facebook.com/nidepaula
Twitter da Nice: @nidepaula




Posted under: 


